*Por Rafael Cortez

A relação entre política e economia é sabidamente bem estreita. Os últimos anos mostraram sensibilidade dos ciclos econômicos aos desdobramentos políticos, no plano doméstico e externo. Essa aproximação entre as duas esferas mostrou-se mais complexa. A política segue afetando as perspectivas para atividade, mas o outro lado da equação parece cada vez mais importante: política sendo pensada, a partir do desempenho da economia.

A eclosão da crise, a partir da covid-19 deve acentuar essa complexidade. A política brasileira não poderá ser pensada sem referências à crise decorrente da doença no curto e no longo prazo. A superação do falso dilema entre saúde e economia é fundamental para minimizar um cenário potencial de caos social, decorrente dessa conjuntura excepcional.

As perspectivas para a recuperação econômica decorrem do cenário de normalização da vida em sociedade. Quanto maior o tempo para essa normalização, maior o efeito econômico.

Medir o tempo, contudo, não pode ser pensado apenas em termos de dias de confinamento. A retomada de uma vida em sociedade minimamente organizada é decorrente da eficácia no controle do contágio do vírus, o que tem sido chamado no debate do “achatamento da curva”.

Assim, a restauração econômica não é o simples resultado do tempo de duração da quarentena. A atividade econômica depende da redução da incerteza na vida das pessoas. O consumo e o investimento só voltam a uma dinâmica positiva quando a sociedade se sentir segura do convívio social. A retomada da demanda paulatinamente puxa a oferta, tracionando a engrenagem produtiva.

A retomada precoce da vida em sociedade, na verdade, poderá resultar na explosão por serviços sociais. A simples autorização formal para o convívio não é garantia da movimentação do mecanismo econômico. A saída precoce poderia resultar em restrições futuras ainda mais significativas.

A agenda política nesse cenário deve ser organizada em torno de três pilares centrais: 1) sistema de proteção social; 2) medidas de urgência econômica para as firmas e 3) medidas para diminuir as amarras orçamentárias no setor público.

O primeiro ponto é fundamental para dar viabilidade mínima à restrição da atividade econômica. A paralisia da atividade é bastante regressiva, isto é, indivíduos mais pobres tendem a sentir de forma mais urgência e dramática a crise. Assim, é urgente a aprovação e execução das medidas de transferência de rendas.

Outro conjunto de medidas aponta na direção de acesso à crédito por parte das firmas, com destaque para as micro e pequenas empresas. Aqui, o desafio é evitar o empoçamento de liquidez, criando mecanismos ágeis para acesso ao crédito, permitindo capital de giro e mecanismos para pagamento de folha, em especial.

Por fim, a agenda legislativa deve priorizar medidas para a flexibilização orçamentária, de maneira a destravar os limites de gasto do governo nos diferentes níveis. Assim, a tendência é de congelamento dos débitos federativos, bem como preservação das receitas de Estados e Municípios. O desafio é garantir que a explosão de gastos não seja feita de forma permanente, sob pena de reforçar o custo da retomada em um cenário de paralização.

As perspectivas políticas, por ora, não são animadoras. O cenário tem duas fontes de risco principal. A primeira decorre do choque entre o presidente e o mainstream da Saúde em torno da estratégia para combater à crise da covid-19. Os sinais de divergência entre o presidente e o Ministro da Saúde são crescentes.

O segundo ponto é resultado da tentativa do presidente de transferir responsabilidades e blindar seu capital político. Ao minimizar o impacto, o presidente aumenta o custo político dos governadores. Por outro lado, se o cenário mais complicado não se materializar no futuro, ele poderá reclamar que sua visão moderada estava acertada.

O resultado desses movimentos é de enfraquecimento presidencial.

A falta de coordenação, contudo, precisa ser superada para minimizar a gravidade do momento.

 

*Rafael Cortez é Cientista Político e sócio da Tendências Consultoria Integrada
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