_ Escrito por Felipe Tamega (Economista Chefe da Itaú Asset) e Mirella Sampaio (Economista Itaú Asset)

Assim como os ciclos econômicos, os fenômenos sociais costumam despertar um forte interesse no público em geral. Entre perguntas bem intencionadas e respostas simplistas, especialistas buscam explicações, tentando extrapolar tendências claras a partir de poucas evidências. As implicações destes movimentos são tão mais incertas quanto mais profundas são as mudanças trazidas pelo fenômeno em questão. E hoje podemos dizer, sem exagero, que estamos vivendo uma era de interação digital sem precedentes, cujo impacto eleitoral resolvemos estudar com mais cuidado na Itaú Asset. O que se segue é um resumo de um estudo proprietário (“Redes Sociais e Eleições”) que fizemos e que sumariza bem os principais pontos discutidos.

Em um mundo cada vez mais conectado, vemos estudiosos dos diferentes campos das ciências sociais traçar paralelos entre as redes sociais “analógicas” e suas versões “digitais”. Se no mundo real as pessoas são expostas e se expõem a um conjunto relativamente limitado de pessoas, no mundo virtual elas podem acessar e compartilhar informações com centenas de milhares de pessoas de um jeito rápido e barato. Esse conjunto enorme de ações individuais gera um rastro de dados, e não são poucos aqueles que têm se dedicado a extrair sinais a partir dessas informações. Não por outra razão, acompanhamos um aumento do interesse em big data, uma expressão que abarca um conjunto abrangente de técnicas e ferramentas de análise de dados.

O valor adicionado por estas análises depende, naturalmente, da qualidade dos dados que estão por trás dela e das ferramentas utilizadas. Seria esse conjunto de informações uma reprodução fiel da dinâmica em um público mais amplo? Se sim, seriam os debates travados online uma boa referência para pensarmos o cenário eleitoral de uma maneira mais ampla?

Considerando a penetração da internet e os seus hábitos de uso pelos brasileiros, encontramos razões para esperar que a dinâmica virtual sirva como referência. Mais da metade dos eleitores brasileiros tem acesso à internet, e os dados revelam que a frequência de uso deste canal supera, em muito, todas as outras fontes de informação tradicionais. Nos parece razoável afirmar, portanto, que temos um contingente populacional relevante que se interessa por notícias e usa as mídias não tradicionais, incluindo sites, blogs e redes sociais, para se inteirar sobre o que acontece no Brasil e no mundo.

Mas os rastros que deixamos pelo caminho são mais fortes do que o número de cliques ou acessos. Estatísticas angariadas pelo Instituto Reuters para o Jornalismo ao longo dos últimos anos mostram que interagimos com as notícias digitais de forma mais ativa dos que os cidadãos de outros países. Este engajamento se materializa a partir de uma maior predisposição em curtir, compartilhar ou comentar notícias no mundo virtual. Cada uma dessas ações representa pouco de forma isolada, mas em conjunto podem revelar a avaliação da população sobre temas caros aos políticos, tais como saúde, educação e segurança.

O problema é que nesse contexto não é fácil separar o sinal do ruído. A própria natureza das redes sociais cria um ambiente fértil para a polarização política, na medida em que permite que as pessoas discutam com pessoas que compartilham as mesmas opiniões, evitando o contato com visões ou dados que contrariem as suas ideias. Essa “câmara de ressonância” pode não ser tão impermeável quanto se imagina, pois muitos brasileiros reconhecem usar mais de um canal e de uma fonte para se informar, aumentando a chance de exposição acidental a diferentes pontos de vista. Ainda assim, não é adequado afirmar que as estatísticas sejam de fato conclusivas.

Desenhamos o pano de fundo para uma conclusão que a esta altura pode soar óbvia: as redes sociais têm potencial para influenciar as eleições no Brasil. Mas o mais interessante é que uma parcela importante da população já reconhecia tal fenômeno mesmo antes do ano eleitoral: segundo o Ibope (2017), 36% dos brasileiros acham que a internet e as redes sociais terão muita influência sobre a escolha de presidente no contexto da eleição de 2018. Cabe destacar que este percentual é maior do que o registrado para a mídia (35%), para amigos e parentes (29 e 27%), para os partidos políticos (24%), líderes religiosos (21%) e artistas/celebridades (16%).

Com a crescente influência das redes sociais para o mundo político, temos acompanhado também um aumento do uso das ferramentas digitais na tentativa de influenciar a opinião pública nesse ambiente. Estudos conduzidos pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP – FGV) mostram que tais métodos têm sido utilizados por todo o espectro político, com intuitos tão diversos quanto conquistar seguidores, conduzir ataques a adversários políticos e forjar discussões artificiais. Ou seja, o mesmo espaço digital que pode gerar discussões interessantes, criando um debate construtivo e democrático, pode ser maculado por agentes com intenções ocultas, que se aproveitem da confiança das pessoas para difundir boatos e notícias viesadas ou não-factuais (fake news).

As implicações deste admirável mundo novo, no qual as pessoas estão cada vez mais conectadas, parece ser cada vez menos uma matéria de ficção científica e cada vez mais um tema contemporâneo. É sedutor buscar em novas ferramentas as respostas para dúvidas que nos assombram. De fato, o grau de assertividade das medidas tradicionais para as corridas eleitorais deixou a desejar em diversos eventos recentes. As pesquisas de intenção de voto não anteciparam que os cidadãos do Reino Unido escolheriam as agruras de um divórcio custoso à convivência pacífica no seio da União Europeia. Os sinais tampouco foram inequívocos nas corridas eleitorais francesa, holandesa, alemã ou, em um dos casos recentes mais emblemáticos, na disputa presidencial norte-americana em 2016.

Nesse sentido, métodos inovadores de avaliação do sentimento público se mostram não somente bem vindos, mas sim necessários. A promessa de identificar rapidamente os temas que preocupam a população, no entanto, deve ser encarada com algum grau de ceticismo. Conclusões extraídas a partir do comportamento dos usuários de redes sociais podem refletir a opinião de um grupo demográfico específico, mas não necessariamente representam a opinião da população como um todo.

O campo da análise política a partir das redes sociais é promissor, já tendo alterado a forma como os próprios agentes políticos se comportam e influenciando cada vez mais o processo democrático. Essa conclusão parece se sustentar para o caso brasileiro. Entre os pontos aqui elencados e outros, encontramos razões para afirmar que tais ferramentas surgem como um bom complemento para as formas tradicionais de análise, mas ainda não devem ser tidas como substitutos perfeitos.