Por Lopes Filhos & Associados

Após um ano positivo em 2017, quando o Ibovespa teve alta de 26,9%, o primeiro trimestre de 2018 se encerra favoravelmente para o mercado acionário, apesar do fraco desempenho em março. O principal índice da B3 apresentou alta de 11,7% nos três primeiros meses do ano, graças à expressiva valorização de janeiro. Podemos dizer que foi um trimestre bastante movimentado tanto no cenário político quanto no econômico, interna ou externamente, o que ocasionou volatilidade no mercado de ações.

A forte entrada do investidor estrangeiro na B3 foi um dos principais fatores para o excelente desempenho no primeiro mês do ano. O fluxo estrangeiro em janeiro foi positivo em R$ 9,5 bilhões, montante equivalente a quase ¾ do saldo de todo o ano passado, que foi de R$ 13,4 bilhões. Porém o que se viu nos meses subsequentes foi a dissipação dessa força compradora. Em fevereiro a saída do capital estrangeiro foi de R$ 4,2 bilhões, mesmo assim a bolsa resistiu, fechando em alta de 0,5% no mês e acumulando um ganho de 9,1% no primeiro bimestre. Em março essa saída foi ainda mais forte, chegando a R$ 5,5 bilhões e tornando o fluxo negativo de capital estrangeiro no ano em R$ 149,0 milhões (dados até 27 de março).

No cenário externo, o aquecimento da economia norte-americana criou uma expectativa nos investidores de elevação nos juros ainda maior por parte do Federal Reserve, contribuindo para uma baixa nos índices globais, com investidores preferindo títulos do Tesouro dos EUA a se aventurar no mercado de ações. O protecionismo do presidente norte-americano também foi outro fato que movimentou os mercados globais nesse primeiro trimestre.

A decisão de Donald Trump em taxar as importações de aço em 25% e o alumínio em 10% fez desabar as ações de diversos setores e índices pelo mundo em meados de março. A tensão com uma eventual guerra comercial ainda foi aumentada pela saída do principal assessor econômico da Casa Branca, Gary Cohn, que era contrário à taxação proposta por Trump. A tensão aos poucos foi se dissipando com a flexibilidade de negociação do imposto de importação com os principais parceiros comerciais, além de um início de tratativas entre EUA e China, que sofreu com a imposição de tarifas de importação que podem chegar a US$ 60 bilhões. Em resposta, Pequim ameaçou lançar barreiras sobre importações vindas dos EUA no valor de até US$ 3 bilhões.

Para encerrar um trimestre repleto de sismos, houve o estouro do escândalo envolvendo o Facebook e a utilização indevida de informações de usuários, fato que trouxe queda para as ações do setor de tecnologia e ajudou a ampliar as perdas no final de março. Esse cenário com muitas incertezas e disputas comerciais levou os principais índices mundiais a perdas nesse primeiro trimestre.

No cenário interno, o primeiro trimestre foi marcado por movimentações políticas, divulgações de dados corporativos e indicadores econômicos positivos. A inflação seguiu sob controle, com o IPCA-15 registrando alta de 0,10% em março, a menor taxa para este mês desde 2000, e acumulou inflação de 0,87% no trimestre. Os índices de confiança do comércio (ICOM), da indústria (ICI) e do consumidor (ICC) seguiram em alta em março, com o ICOM e ICI batendo recordes históricos, evidenciando o bom momento econômico vivido pelo país. Pelo lado político, a corrida presidencial ainda sem candidatos bem definidos já movimentou o cenário nacional. A condenação em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a indefinição quanto à prisão também contribuiu para este confuso cenário político.

Pelo lado corporativo, a combinação de negócios entre a Suzano e a Fibria causou grande movimentação no mercado, com as ações destas empresas apresentando giros financeiros expressivos após o anúncio. Pelo lado negativo, as ações da BRF despencaram, após a companhia ser envolvida em uma nova fase da operação “Carne Fraca” da Polícia Federal e a proibição temporária de exportação de frango para Europa.

Por fim, os próximos meses tendem a ser bastante movimentados, com definições concretas de candidatos a presidente do Brasil, em um pleito que traz o risco de candidatos extremistas ganharem força. Uma decisão por parte do STF no julgamento do ex-presidente Lula também é esperada e pode ajudar a definir uma tendência da bolsa brasileira. No cenário externo, as expectativas ficam por conta das negociações dos EUA sobre a taxação do aço e alumínio, com um entendimento positivo dos norte-americanos com seus principais parceiros podendo afastar os temores de uma guerra comercial. Na Europa também é esperado novidades no Brexit, depois que o Reino Unido e a União Europeia concordaram em “grande parte” nos termos do acordo de transição que culminará com a saída dos britânicos do bloco, marcada para março de 2019.